Sinto muito

Ah, querida, casos de amor? Conheço vários, os meus e os das amigas.

Uma amiga me disse que naquele dia, no apartamento dele, o calor fazia-se furor no sangue e nos braços, mãos, bocas e pernas. Tudo pronto em úmido acolher. O crescente desejo em ondas. Venha, agora. Um suspiro profundo em frustração. A potência em riste desfazendo-se. Abrandamento. Sinto muito. Ela não foi conivente. Não passou a mão na cabeça dele e disse que isso acontece. Que é normal. Que mais tarde eles recomeçavam. Não. Enfureceu-se no escorrer de súbitas vontades de vôos líquidos, sem asas. Estampou nos olhos a decepção e foi ao chuveiro se resolver.

Imagem disponível na internet

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Uma vez foi em meu apartamento. Perfume de rosas e aromas e velas na noite de namorados. Era a noite dos amantes. Passado imperfeito de lembranças. Um jantar, um vinho. O sofá, a cama, o banheiro, tudo pronto para qualquer começo. Início de pequenas labaredas. Calor. O quente das peles se impelia sobre o tapete e as pétalas vermelhas. Ele dizia que eu tinha caprichado. Todos os detalhes em vermelho. Paixão, fogo, tesão. Não gostava de situações novas, as expectativas eram água na fogueira. Dizia que ficava nervoso nessas ocasiões. Eu desconversava e falava uma língua que só o corpo entende. Ele desentendia. Oscilava, ia, não ia, estável, instável, foi. Compreendeu que a noite era de delícias e quis me dar um banho de gato. O miau não era tão bom felino. Intenso, querido. Não, pra frente, pra trás, menos, mais. Eu ia insistindo, desistindo. Pule essa parte, vamos para a próxima. Eu falei pra você, essas celebrações me deixam nervoso. Sinto muito, queridinho. Não tapei o sol com a peneira. Você precisa procurar ajuda, onde já se viu um clima romântico desestimular um homem? Ler uns sites e revistas sobre prazer feminino também pode ajudar.

Outra amiga me disse que depois de duas ou três saídas resolveu dar, ele queria muito, ela nem tanto. Mas, não estava mesmo com ninguém, que mal tinha? Na ida para o motel ele revelou que precisava passar antes numa farmácia. Tudo bem, camisinha é indispensável, ela pensou. Ele entrou, comprou o que precisava e tomaram um táxi para o motel mais perto. Ele comentou que estava com um pouco de dor de cabeça e tomou um comprimido azul. Dentro do quarto tudo seguia pela ordem esperada. Apertos, amassos, chupadas e mais. Em cima da cama a cartela revelava o nome da pílula do prazer. Ela sabia que a noite estava garantida. Continuidades e refreamentos. Vamos um pouco mais devagar, querida. Continuações e paradas. Preciso de um copo d’água. Deixe disso, venha. Estou louca pra sentir você. Ele vinha e queria recomeçar o começado. Ela se eximia em colaborações com a azulzinha e nada. Como você quer, coração? Assim, assado, nada sobre nada. Agora eu quero assim, coração. Assim, assado, isso, vá, não pare, ooohhh. Sinto muito. Você olhou a validade do remédio?

Ah, querida, nós sentimos muito. Sentimos muito amor próprio, muita altivez, muita consciência. Cansei daquelas noites de fingir orgasmos para o meu ex só porque ele queria se exibir na sua macheza. Não sabia onde começava e terminava a liquidez da minha concha. Basta, né, de forjar elogios a uma noite frustrada e fazer de conta que entende e aceita ter ficado sem prazer no ápice do tesão. Ah, meu amor, antes de tudo é mais forte o meu amor, sim, por mim. Não dá pra ser condescendente na largura da virilidade exibida e esvaída pelas curvas da idade. A medicina está aí, fazendo milagres. Sinto muito, porque muitas mulheres já sentiram a dor e a revolta de desaparecerem no jato de sêmen coalhado de desrespeito.

Casos de amor? Sim, mas em todos eles eu sinto muito mais por mim.

Lílian Almeida

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