Encantada

Ali, logo ali, a estrada fazia uma curva. Depois era a casa cercada de árvores. Elas sombreavam o terreno e davam um ar enigmático ao local. Ela costumava estar lá dentro. Era pouco vista do lado de fora. Se estava entre as árvores e plantas, tinha sempre alguma folha entre as mãos. Os dedos traziam as marcas entrecortadas pelo tempo. As mãos enrugavam os tremores da idade. Era uma senhora de muito viver. Caminhava num passo lento pelo terreno, curvava-se à frente, apoiava uma mão no joelho e a outra separava o que procurava. Quebrava os pequenos galhos de ervas e voltava para a casa.

Muitos diziam que ela era uma bruxa. Eu a achava muito diferente das imagens de bruxa que eu conhecia. É verdade que era velha e as bruxas são velhas. Era só essa a semelhança. Ninguém que a tivesse procurado saiu de lá sapo, ou coisa do tipo. Ela tinha uma boa fama no lugar. Sempre acolhia quem chegasse precisando de ajuda. Minha mãe várias vezes foi lá com a gente. Era a diarreia que não passava de um, a dor e o buraco no meio do peito de outro, ou mesmo uma gripe mais forte. Ela sempre tinha alguma solução.

Eu via com desconfiança aquela casa. Era um misto de susto, medo da sombra das árvores e certeza de que o remédio sempre estava ali, sentíssemos o que sentíssemos. Algumas vezes estive lá com mãe. Sempre em busca de socorro. Mãe chegava perto da cerca e já ia chamando, Dona Filhinha, ô Dona Filhinha. Parávamos no portão pequeno de ripas. Ela saia na porta e dizia que podia entrar. Eu girava a tramela e empurrava, mãe passava e eu girava novamente a tramela. Assim eu ganhava tempo, mãe ia na frente, eu acompanhava logo atrás.  Ela sempre recebia com um pode entrar, minha filha. Ô, Dona Filhinha, eu vim aqui porque essa menina. E mãe desfiava o motivo da visita. Ela ouvia sentada na cadeira parca. Nós também sentávamos para contar os maltratos do tempo. Era tudo do tempo. Tinha tempo de papeira, tempo de sarampo, tempo para tudo. Tinha até tempo do desencanto, tempo do mal querer, tudo era relacionado com a moléstia que abatia o doente.

Naquela vez era o tempo do mal querer. Eu tinha um dor no meio do peito, parecia um buraco, um oco do mundo no meio das costelas. E doía o tal buraco. Se varria a casa doía. Se carregava a lata d’água doía. A mãe achava que eu me esmorecia para não fazer o serviço da casa.  Era não, era dor mesmo. Às vezes a dor era tão funda que eu chorava fininho no canto do quarto. Ela perguntava o que era. A senhora já sabe, eu falava, cansada de dizer do buraco. De tanto eu falar da dor do oco do mundo no meio do peito ela resolveu procurar Dona Fillhinha. Eu já sabia como seria. A gente caminhava um tanto até chegar na estrada. Seguia por ela na parte de terra. Os carros passavam com pressa. Eu via a velocidade no vento que batia na minha cara. Eu gostava daquele açoite. A mãe dava pressa, dizia que tinha coisas em casa para fazer, que eu adiantasse o passo. Eu corria para ficar parelha com ela. Logo depois estava eu outra vez atrás. A brincadeira com o vento distraía a caminhada. Ela novamente reclamava, avie, menina, adiante o passo. Eu corria de novo. Assim era até chegar à cerca de Dona Filhinha. Só mudava o que sucedia lá dentro, tudo de acordo com o tempo de cada coisa.

Pode entrar, minha filha. Mãe sentou e falou qual era o abatimento daquela feita. Dessa vez até eu falei. Dona Filhinha pediu para eu dizer como era que eu sentia o buraco. Contei tudo, até que mãe achava que eu tava de treita para não cuidar da casa. Ela parou em pé junto de mim e passou a mão no lenço que cobria meus cabelos. Puxou minha cabeça pro peito magro dela e disse que aquilo era de arriar qualquer um, quanto mais uma criança. Mãe me olhava de olho virado. Eu sabia que ia ter couro quando chegasse em casa. Quem mandou eu falar que ela não tinha acreditado em mim? Era couro na certa.

Dona Filhinha disse que não tinha mal sem remédio. É a espinhela, minha filha, tá caída. Afastou-se de mim e foi em direção à porta no fundo da casa. De cá da porta de entrada podia-se ver a porta dos fundos e o verde além dela. Eu seguia com o olhar o passo lento. Ela ultrapassou a soleira e desapareceu. Eu me movi na curiosidade. Levantei da cadeira e fui até a porta. Fiquei parada, dentro, olhando a curvatura daquela mulher. O tronco desceu para frente e para baixo. A cabeça suspensa virava-se para um lado e outro procurando o que ela queria. Ela murmurava alguma coisa. Parecia falar com o mato do quintal. Passava as mãos na folhagem ajudando os olhos a encontrar o remédio certo. Escutei um “uhm, cê ta qui” e a mão quebrou um galhinho. Voltou com as ervas na mão, me dizendo que tava ali o que ia tapar o buraco. Parada na porta, eu ouvia e via ela voltar. Fiquei embasbacada não sei com o quê. Ela foi para a entrada e eu apenas acompanhava-a com os olhos, estática, encantada. O que fazia aquela mulher franzina falar com as folhas e elas responderem se mostrando? Como ela achava solução para tudo naquele quintal? Venha, minha filha, vamos cuidar logo disso. Eu despertei do encanto espantado e fui para o lado dela.

Ela puxou a cadeira para o meio da saleta, mandou eu sentar e ergueu os braços ao alto. Numa das mãos as folhas, a outra, curvada, parecia pedir algo. Ela murmurou alguma coisa e mais pelos poderes da Graça e da Virgem Maria. Só escutei isso. Depois tudo virou uma canção sibilada. Era um sussurro acelerado embalado pela mão em folha que subia e descia. Passava pela minha cabeça e pelas minhas costas, depois a cabeça e o meu peito. Ela balançava as folhas e às vezes batia-as em mim. Eu sentia o cheiro da planta que ia aos poucos se machucando para tapar o meu buraco. O sussurrado ia se acalmando e ela finalizava em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Voltava lá para o fundo. Dessa vez eu fiquei prostrada na cadeira, o cansaço foi maior que a curiosidade. Ela veio e deu as recomendações para mãe. Não pegar peso de jeito nenhum, nem fazer força. O meu olho e o de mãe se encontraram. Parece que ela viu na minha cara a alegria de não ter que carregar as latas d’água para dentro de casa. Dona Filhinha me disse para eu me pendurar em qualquer galho de árvore e sustentar meu peso depois de uma semana, só depois de uma semana. Perguntou se a gente criava galinha e começou a falar do osso do peito da galinha. Olhou para mim e me disse para esperar lá fora. Ficou um tempinho conversando com minha mãe. Depois mãe foi saindo e dizendo que eu mesma ia trazer umas frutas do pomar e uma galinha para ela, quando ficasse boa. Fizemos o caminho de volta com menos pressa. O vento ainda procurava brincadeira e eu bem que gostava. Mãe não pediu para eu adiantar o passo, se comoveu na compreensão.

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Foto: Lílian Almeida

Os dias iam passando e eu cumpria o que Dona Filhinha pediu. Uma semana de descanso, nada de vassoura ou lata d’água. Eu via mãe com a forquilha da galinha que a gente comeu logo depois da visita a Dona Filhinha. Todo dia ela pegava o ossinho do peito da galinha e dizia umas coisas. Sempre que eu chegava na porta ela esbravejava, vá pra dentro. Eu me recuava no dentro da casa. Passou a semana e mãe falou para eu me segurar no galho do cajueiro. Eu subia na gangorra, agarrava a árvore e tirava os pés do assento do balanço. Me pendurava três vezes e descia. Na hora que eu tirava o pé da tábua uma dor doía o buraco. Eu até achei que ele já estava fechado. Mas não, estava ali, bem aberto. Os dias passavam, o buraco doía menos. Mãe se mantinha com a forquilha da galinha dizendo coisas pro vento. Eu via pela greta da janela.  Não notei quando o buraco fechou. Só me dei conta quando mãe arrumou um cesto com frutas e amarrou os pés da carijó mais nova. Arrumou o balaio em cima da cabeça e me deu a galinha. Seguimos o caminho até a cerca, mãe começou a chamar, Dona Filhinha, ô Dona Filhinha. A resposta era o silêncio. Paramos no portão e mãe se repetiu no chamamento. As árvores se balançavam, o vento acenava nas folhas. A porta estava aberta. Mãe girou a tramela, eu passei e esperei. Ela foi na frente, chamando. Um cheiro de jasmim envolvia o ar. Paramos na soleira. Ninguém. As folhas além da porta dos fundos dançavam. Todos os verdes, em meneio com o vento, ciciavam um rumor de folhas. Eu olhava e tinha certeza. Dona Filhinha era encantada.

 

Lílian Almeida

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