Bem te vi

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Estava ali, ao lado do meu apartamento. Uma casinha cheia de singeleza e fios secos. Equilibrava-se entre os arames do varal esquecido por outros moradores. O vento às vezes embalava a morada, mas passarinho sabe pegar carona no ar. Eu tinha um novo vizinho, um morador ilustre, cheio de sabedorias de voos e gentilezas. Logo cedo me cumprimentava, bem te vi. Silenciosamente eu respondia, também te vi.

Eu me exaltava com a inusitada companhia. E me perdia no tempo de olhar a engenhosidade da arquitetura de fios sobre fios. Me ocultava imóvel no vidro da janela para vê-lo chegar. Como quem investiga os perigos, pousava numa antena do prédio, pulava para um lado e outro, observava o livre acesso ao ninho e, num voo certeiro, adentrava a casa. Sumia na pequena moradia. Eu aguardava. Mais parada, colada ao vidro, o via tomar ares de sentinela. Mantinha-se num dos fios do varal. Certificava-se de que o local era adequado para a família que logo seria e saía para sua vida de liberdades.

Eu? Eu me derramava de amores pelo meu vizinho, de um amor de gente. Me despejava de honras pela escolha do local da morada. Eu, que sempre tive desejos de pássaro, de voos livres em altos horizontes, me sentia premiada. Em algum momento de minha vida resolvi que não teria animais presos em gaiolas ou similares. Eu me resolvia sem amarras e os queria também assim. Mas ansiava tê-los por perto. Dar-lhes água foi a saída. Eles vinham, bebiam e iam embora. A alegria brilhava o meu olhar cada vez que um colibri beijava o líquido na corola da flor plástica. Sem astúcias de beija-flor, os sebinhos também chegavam, com os pés agarrados na corretinha que arquitetei para os que não ficam imóveis na velocidade vibrátil das asas. Os dias eram uma festa de penas e bicos e cores.

O meu vizinho chegava e saía na dinâmica dele. Investigava do alto a segurança do lugar, entrava, fazia o que não sei lá dentro, obsevava os arredores e afastava-se. Eu seguia o meu cotidiano no meu ninho. O meu varal relatava parte do que eu fazia ali dentro. As roupas balançavam em brincadeiras com o vento. O meu vizinho se assustava. Eu me exasperava. E agora? As relações de boa vizinhança dizem para não incomodar. Eu estava incomodando. Eu estava me denunciando. Havia vida humana por detrás da parede que ele via. E os humanos, nós sabemos, são um perigo. Aderida ao vidro, em silenciosa agonia, eu proclamava que não queria assustá-lo, menos ainda machucá-lo. Os ventos não levam minhas roupas para a sua casa, há distância. Nenhum bem te vi me alentava. Ele permanecia em silêncio, no alicerce de sua residência. Apenas o ruflar das asas agitadas brigando comigo, com as roupas, com o vento.

Ele pegou as suas coisas e colocou no bico da mudança. Idas e vindas transportando a casa para um novo espaço. Eu não tinha como me desculpar. Indesculpável a minha humanidade. Meus sentimentos eram um ácido queimando a cada voo. Eu sentia tanto! Tinha apenas desejos de liberdade, nunca desejos de pássaro. E uma estupidez imensamente humana.

 

Lílian Almeida

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2 pensamentos sobre “Bem te vi

  1. Bem que vi, sempre vi… a sensibilidade e a intensidade da tua escrita. Ternura disfarçada em prosa. Parabéns pela delicadeza deste texto. Abraços do Sul – Gilka Coimbra

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