Felicidades!

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Felicidades! Era o que dizia o cartão que acompanhava o presente, além de confirmar que era pra ela e quem dava. Ficou observando o tamanho e as cores do cartãozinho. Rosas vermelhas saltavam do fundo branco. Dentro: Felicidades! De: Ângela Maria Para: Lenira. Apenas felicidade? Era somente isso que desejava para mim? A minha melhor amiga. Um diário e um minúsculo cartão no dia do meu aniversário. Para você registrar os dias e reescrever a sua história, abraçou-me em risos. Com tantos desejos, todos conhecidos por ela, no papel unicamente um seco felicidades.

Os sentidos esvaiam-se na solidão da palavra. Solidez demovida de significado. Apenas uma palavra no pequeno espaço em branco. Apenas a tristeza de ver-se pobre de desejos desejados para ela.

Ela sabe que desejo ardorosamente ser mãe. Uma filha para pentear os cabelos, colocar laços e pulseirinhas e sapatinhos delicados. Mas antes, desejo um pai, um pai para minha filha. Um namorado que se torne um marido que cuide de mim, fiel e honesto. Um lar doce lar com alegrias e risos. E fins de semana com aromas de comidas e casa cheia, com pipocas e filmes ao final da tarde, com noites aquecidas debaixo do frescor dos lençóis.

O último namorado parecia que seria o que ela queria. Carinhoso, dedicado, honesto. Lenira, meu amor, vamos ao cinema hoje? Ela sempre cansada, o escritório a exauria. Querido, o que acha de assistirmos um filme lá em casa mesmo? Mas nós já vimos todos os filmes que você tem, coração. Ah, meu bem, eles são tão bons que não custa assistir de novo. De mesmo em mesmo ele cansou de tudo igual. Disse adeus diferente, pelo e-mail.

Ela sabe que desejo um carro. O transporte público é muito ruim, ônibus cheios, longas esperas nos pontos. Um carro para me levar aonde eu quiser ir. Acordaria mais tarde, em meia hora estaria no emprego. Um carro.

Ela sempre dizia que compraria um carro para ir aonde quisesse. Mal saia de casa, apenas o trabalho, o supermercado, a casa do pai, a casa da mãe. Aonde mais desejaria ir? Com esses ônibus que demoram e passam cheios, quem vai querer ficar saindo? Prefiro ficar no aconchego da casa. Antes do veículo, a carteira de motorista. Legislação, aulas práticas, exames. A escola de formação de motoristas ficava na mesma rua do escritório onde trabalhava. Ah, sempre saio muito cansada para ainda ir lá fazer minha matrícula. O carro dissipava-se no inconsistente querer, no inerte cansaço que a retinha entre a casa e o trabalho.

Ela sabe que desejo conhecer o mundo. Os programas sobre viagens e turismo são os meus preferidos. De início, muita coisa para ver no Brasil. O mundo, só depois de conhecer a própria casa. Ah, viajar, viajar. Apreciar as belezas da natureza e lugares bem diferentes de onde vim.

Ela queria viajar, conhecer as paisagens que a TV exibia às sextas-feiras. Fazia economia para a viagem que faria. O dia? Imprevisível tempo adiado. Faltava-lhe companhia. Os namorados? Sempre cansavam de esperar a temporada ideal, os melhores preços. As amigas? Ângela Maria? Dedicava-se aos filhos, ao marido, acompanhava os sonhos da amiga entre o horário de almoço e a volta para casa. Viajar era tudo o que eu queria, mas com quem ir? Excursão. Não, partilhar as emoções sem intimidade? Difícil. Ela já fez algumas viagens, todas entre a sua cidadezinha e a capital. Mês que vem você entra em férias, vai viajar? Não, só ano que vem, emprestei minhas economias pra meu irmão reformar sua casa.

Ela sabe do desejo de emagrecer e riu quando eu disse o resultado dos exames. O médico disse que a triglicéride e o colesterol estão nos Alpes. Congelados, doutor? Nas alturas. Emagrecer, malhar, comer menos.

Queria começar a malhar, entrar na academia. O colesterol estava alto, o peso também. Precisava diminuir sua largura e a pressão sobre o coração. Outra vez a companhia. Como malhar sozinha? Precisava mudar a alimentação, reduzir as quantidades. Cortar um dos poucos prazeres que tinha? Um sacrifício. Como controlaria as refeições? Quem cobraria? Em casa sozinha ela se esquecia de usar o adoçante e de não comer os doces que comprava depois do expediente.

Olhava tristemente para o cartão. O diário e a fala de Ângela Maria esquecidos diante da palavra no papel. A amiga desejava apenas felicidade. Como ela, justo ela, podia diminuir as possibilidades de seus desejos serem atendidos? Quanto mais gente desejasse por ela muitos desejos, mais chances de realização de algum. Casamento, viagens, emagrecimento, veículo. Muito para desejar. Amor,saúde, realizações, prosperidade. Um seco e solitário felicidades. Registrar os dias, reescrever a própria história. Felicidades. Acabava de descobrir que ela não era sua melhor amiga.

 

Lílian Almeida

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2 pensamentos sobre “Felicidades!

  1. Desejos e mais desejos… só para atrasar a felicidade. A eterna incompletude que nos acompanha, às vezes, pela vida toda. E, como se não bastasse, desconhece a amizade para deixar ainda mais distante a felicidade. Muito bom teu texto – verdadeiro!!!! Parabéns !!! Abraços, Gilka Coimbra.

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