Lavando a alma

Chove a cântaros. Procuro pequenas ilhas na calçada para evitar as poças e, então me dou conta. Que importância pode ter a irregularidade das calçadas da Osvaldo, se os tons em cinza que abraçam as palmeiras imperiais estão cada vez mais bucólicos nessas tardes de inverno? Olho mais longe. Uma nesga de luz desenha uma cortina de névoa esbranquiçada que disfarça o final da avenida e o tom mais escuro da entrada do túnel. Que me importa a onda d’água, que na diagonal levanta dos carros e vem em minha direção? Desfruto de uma tarde de inverno. Com entusiasmo, num jogo de corpo que aceita e se prepara para a dança, desvio dos pequenos tsunamis urbanos nas beiradas das calçadas. O som da rua é intenso e nas esquinas o vento assobia fininho, fingindo ser um violino – penso que toca para mim. Diminuo o passo e apuro os sentidos.

Chove a cântaros e eu caminho devagar, bem devagar, absorvendo os movimentos da rua que por tantos anos foi cenário e minha morada. Do outro lado, no parque, dois homens empurram sem pressa um velho e enferrujado carrinho com os seus parcos pertences. Ignoram a chuva e dividem, entre goles, a vida e o trago. O cão que os acompanha, encolhido, procura abrigo e, como não acha, roda às tontas por entre as pernas do dono. Os vendedores das lojas, protegidos, observam o vai e vem das sombrinhas que matizam o preto e branco da tarde.

O trânsito carrega uma humanidade agitada. O velho da cadeira de rodas – com ponto fixo na mendicância do bairro – espera ensopado. Ali, embaixo de uma marquise, espera pelo menino que o leva à tardinha para casa. Está atrasado o guri. Meus dedos encostam a palma da mão fria quando lhe entrego uns trocados.

– Deus lhe dê muito mais, dona – repete baixinho.

– Já deu! – respondo, olhando-o pela primeira vez nos olhos.

Um latido distrai minha atenção e, na vitrine da veterinária, dois cachorrinhos brincam felizes. Ninguém tem tempo para olhar.

Não desvio dos pingos mais grossos que vazam das velhas sacadas, quero ouvir a água mais forte, tamborilando no meu guarda-chuva. Num contraponto quase que imperceptível, parece que ouço o percutir cadenciado de um grupo de capoeira. Sinto todos os sons e os cheiros da Redenção – ao sol, nas manhãs de domingo.

Distraída, com o que vejo e sinto, passeio na chuva. Piso forte no chão para estar de volta, e para ver a água saltar e invadir meus sapatos. Que me importa que chova a cântaros, antes de partir quero encharcar-me de minhas lembranças. Bom Fim.

Gilka Pierry Coimbra (Só para não contar a mesma história)

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