A poeira dos dias

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

É que andei na terra do esquecimento, muito longe de mim mesmo.

Ordep Serra

Sentada no jardim da instituição ela olhava os arredores. Pessoas, passarinhos, flores, edifícios. Ao lado, o mais alto. Tinha-se uma bela vista panorâmica do último andar. O templo do saber e seus quatorze andares. Uma festa de palavras saltava da boca dos dali para falar do templo. Era tudo o que de grande podia ser, o primeiro, o maior, o mais. Era demais. Mas.

Estava parte do grande, do demais. Era professora visitante na universidade de renome internacional. Estrangeira. Estranha. Tentava alcançar o topo do edifício com o olhar. Improvável. Olhava para os pés, eles estavam mais perto dela. O pó dos dias embaçava-lhe a visão. O olhar virava-se para baixo e ela não compreendia que assim é que era. Os pés. Raiz e sustentáculo. O calçado escondia as marcas do tempo de vida. Através deles ela via. O dedo torto na topada obtida em brincadeira com os filhos. A cicatriz da queda num dia de chuva. Cada sinal uma lembrança da raiz. Onde plantei meus pés? Ela perguntava em silêncio para os sapatos. Apenas o vento assobiando aos ouvidos. O Atlântico era distância e sal.

Ela escutava na memória o vento brincar com a janela da sala, passear pelo quadrado do lugar e pedir sua presença. Ela não resistia. Ia à janela, sentia-o na cara, contemplava o coqueiro dançarino. Ao longe o mar acenava como quem dizia: mandei-lhe um beijo na brisa que passa em seu rosto. Ela olhava cheia de amor por ele. Os olhos, em agradecimento, murmuravam: dia desses vou lhe ver de perto, amado.

Uma criança passa chorando e pedindo colo. A mãe reclama, acentua a idade, o fim do direito de ir carregado. Ela olha, escuta e olha mais. As pessoas, as construções, o chão. Onde plantei meus pés? Os paralelepípedos dali não reconheciam seus passos. Em recíproca, eles também não.

Quatorze andares de conhecimento. Quando entrou pela primeira vez numa biblioteca? Era pedir muito, naquela idade, lembrar da primeira. A da faculdade foi a que mais conheceu. Diziam-na rata de biblioteca, tanto e tanto a frequentava. O pouco dinheiro não chegava para as xérox, menos ainda para livros. O básico era o aluguel da república e a comida. O mais era quando dava. Não lembrava da primeira, e essa não será a última. A pergunta voltava, insistente: Onde plantei meus pés?

Ela fazia um esforço para lembrar do chão, da terra. Uma profusão de rostos e frases saltavam à mente. Estudar pra ser alguém na vida. Mulher tem que estudar, trabalhar e não depender de marido. Lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã. De que cor eram os olhos de minha mãe? Pra falar a verdade a vida nessa cidade não tem ido lá tão bem assim. Quando nasci um anjo disse: vai carregar bandeira. Ah, que saudade eu tenho da Bahia. Para ser grande, sê inteiro! Um filme passou-lhe ante os olhos. Cada cena acendia nela fragmentos de uma vida. O pai, a mãe, a faculdade, os filhos, as escolhas, as itinerâncias, as verdades, as metas. Recuperava a memória do caminho trilhado. Cada rosto puxava uma situação, um tempo, um espaço.

Tantas foram as estradas que trilhei, reconhecia. Os solos faziam-se retalhos de passagens. Chão de barro, pista de asfalto, caminho em mata fechada, rua de pedra. Revia os trajetos todos até ali. O piso de paralelepípedo que levava à biblioteca era apenas mais um em meio aos anteriores. O vento outra vez passava e retirava-lhe a poeira das vistas. As estradas tinham ida e volta. Ir, ela ia. Voltar, nem sempre ela sabia, às vezes esquecia. Onde plantei meus pés?

Olhava novamente para os sapatos. A Ribeira avançava para o mar e saudava Plataforma. Nazaré despencava na ladeira que levava ao Barbalho. A princesa do sertão sorria mandacarus no pórtico da faculdade. As estradas brilhavam quando a noite se apagava nas poltronas dos ônibus. Salvador abençoava com maresia as voltas. Lembrava do poeta do rio Tejo. Da minha aldeia vejo o mundo. Admitia que só poderia contemplar o horizonte que desejava a partir de sua aldeia, Fernando estava certo.  Dali poderia vislumbrar e ir para qualquer lugar. O contrário assim não seria. De onde estava só poderia mirar o solo onde plantou seus pés. Aqui, me afirmo. Lá, pertenço, me reconheço. Apreendia. Olhava para os pés, eles estavam bem mais perto dela. A poeira dos dias era espanada para longe. O olhar virava-se para baixo e ela compreendia que assim é que era. Os pés. Raiz e sustentáculo.

 

Lílian Almeida

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2 pensamentos sobre “A poeira dos dias

  1. Que dizer? Como gastar-se nesta luta vã com as palavras quando tenho a ti para fazê-lo por mim, por nós, pelos Outros? É fantástico ver a menina virar mulher e a mulher cuidar da menina.
    Parabéns? Pura redundância…

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