Livros

Foto; Lílian Almeida

Foto; Lílian Almeida

Hora de voltar. Arrumar as malas, as roupas, os sapatos, os livros. Dias com a cabeça nas alturas do destino. Salvador, uma imagem nas retinas, um desejo no coração. Tempo dividido entre as demandas profissionais, pessoais, autorais, afetivas. Demandas aos coelhos! Vender, desfazer, doar, jogar fora, empacotar, enviar, reunir, debater, devolver, agendar, escrever, revisar, contatar, telefonar. Ações. Respirar e começar pelo começo. O que vai, o que fica. Separação.  O que fica dentro de onde? Caixas e caixas, tamanhos vários. Utensílios, roupas, cosméticos, sapatos. Um mundo construído em muitos meses, enquadrado em algumas horas. Tarefa última: os livros.

Postergou o tempo no adiado despedir-se dos livros. Cada um tinha uma história, uma data de aquisição, de nascimento na vida dela. Na minha vida. Alguns com a caligrafia de seus autores em dedicatórias e assinaturas. Outros com linhas que marcavam o que ela viu. Uns com legendas esdrúxulas, pontos de exclamação, setas, chaves. Alguns ainda pouco íntimos.  Todos diziam dela. Pensou em agrupá-los por área. Ensaio, poesia, romance, conto, teoria. Desistiu. Quis colocá-los em grau de emergência de uso. Como poderia classificar o que era urgência e emergência em matéria de leitura? Não podia considerar apenas as necessidades da tese e seu voraz desejo por teoria. E ela, apagaria a loucura por uma poesia no romper da madrugada? Abriria mão de reler aquela frase marcante de uma autora, em sobressaltos da memória? Definitivamente não tinha condições de eleger pódios para eles. Eram todos indispensáveis.

Pior que precisar encaixotar os livros e enviá-los, era perceber que dia após dia a presença deles ia diminuindo na exígua morada. Ela levava aos correios uma caixa por dia. Adiava o adeus, retinha-os em cima da mesa, sobre as cadeiras, em cima da cama. Pegava, apalpava, abria, conferia a data e lembrava da história do nascimento daquele livro. Por que ele chegou até ela? Alguém deu? Ela comprou? Indicação de quem? A vida dela estava pouco ou muito marcada nele? Com o livro na mão ela fazia uma travessia e parava diante da caixa de papelão, aguardando complacente que a vontade dela se desfizesse em aceitação da partida. Eram poucos dias de afastamento, talvez pouco mais de oito. Outro jeito não havia. Ela arrumava-os um ao lado do outro, repetindo o ritual de despedida. Dia após dia a presença deles ia diminuindo.

Deixou com a funcionária a última caixa. Voltou para casa. A mesa vazia, as cadeiras livres, a cama em completo acolher. Ela olhava o vazio em volta. Ausência. Sentiu como se lhe faltassem amigos. Faltava. Olhou para os únicos três livros que não enviou. Ela não estava só.

 

Lílian Almeida

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2 pensamentos sobre “Livros

  1. Temos aqui no Sul um poeta – Elvio Vargas – que te diria assim:;ELEGIA
    “A vida nos dá às vezes, aquele
    estranho ar de um ramalhete
    de flores e nos imprime uma
    ausência sem trégua no coração.
    O resto tudo é uma insólita viagem
    onde desencontramos os horários.
    Vai-se o trem da vida. Permanece a estação da saudade”.

    Belo texto o teu, puro sentimento. Com carinho, bom retorno!!!! Vai, menina. Vai pra casa.
    Gilka Coimbra

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