Ela dizia que não sabia dizer o que sentia quando sentia

Foto: Lílian Almeida Escultura do Palacete das Artes

Foto: Lílian Almeida
Escultura do Palacete das Artes

Ela dizia que era toda derme, toda sentidos. Ela dizia, quando conseguia. Exercia-se em sentir e reescrevia Bandeira. Falo pouco, sinto muito. E engulo palavras. O rosto grave diante do desconhecido era o indício de que a o alarme soara dentro dela. Retardava os passos, retrancava os pensamentos. Toda ela convergia para experienciar com inteireza a sensação que a tocava. Uma música, uma cena, um ruído de folhas, um toque, um cheiro. Caminhava em comum com as gentes, apressada, quando a hora era exígua. Mas se o insólito lhe chegasse, por qualquer via, desacelerava-se no completo contemplar o que sentia.

Ela ia no caminho para casa. O de sempre se acumulando no cotidiano. Na rua, a mulher negra, pequena, caminhava passos miúdos. Para onde ia a menor mulher do mundo? Observava, concentrada, aquela mulher de remotas Áfricas. Reteve o andar. Era da tribo dos pigmeus, era Pequena Flor. Uma intempérie de sentidos e vozes percorriam seus olhos fixos naquela mulher. O jornal estampava uma mulher negra de quarenta e cinco centímetros? O cruel desejo de ter para si aquela coisa miúda e indomável. As investigações sobre seu corpo, seu riso, sua casa-árvore. Imagine só ela servindo a mesa aqui de casa!  Um brinquedo no laboratório das desumanidades humanas, um objeto das bondades odiosas. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. A menor mulher do mundo estava ali, na sua frente. Não era objeto de ciência nenhuma, era simplesmente uma mulher. Inteiramente uma mulher, negra, como ela. Observava o meneio do corpo, o movimento dos braços, a pequenina bolsa. Também ela sentia-se a menor mulher do mundo. Não era pigméia. Era uma mulher negra. Era uma mulher. Sentia-se invadida na curiosidade sobre seu corpo de amante fogosa. Sentia-se aviltada no pretenso julgamento de não ter aptidão para ser mais do que uma doméstica. Sentia a menor mulher do mundo e a si mesma através da mulher que passava na rua diante dos seus olhos. Sentia-se pequena ante os diminutos olhos diminuidores dos que a queriam para menos, para muito menor.

Ela dizia que não sabia dizer o que sentia quando sentia. Era preciso tempo. Tempo para os sentidos aquietarem-se e as palavras acordarem. Demorava para transformar em linguagem a sensação vivida. A espera se demorava tanto que ela se esquecia. Apenas no esquecimento, um dia, a primeira palavra vinha, e outra e outra e mais. Funcionava num ritmo destemporalizado. Adormecia a linguagem para sentir, esquecida do sentido acordava as palavras para dizer. Engrenagem. O compasso que freava a linguagem era o mesmo que impulsionava os sentidos. Suas conversas eram sempre sobre coisas passadas há muito tempo. Os amigos já sabiam. Outro dia me dei conta que há olhos que veem e não enxergam. Olhos de não ver.  Quando foi isso? Ah, já tem tempo. Falar do que sentia era o mesmo que falar de passado.

Outro dia era a avenida e o cheiro de verde exalando pelo ar. No canteiro do meio, o cortador de grama dançava ao barulho da máquina, salpicando pedaços de folhas na manhã. O sol inundava os rostos dentro do ônibus. Sentada, ela ouvia e via e cheirava. Música e dança. Confetes verdes salpicados na altura do ar. Aroma de clorofila. A tela de proteção protegia. Não a resguardava. Começava outra vez. Preenchia-se do ruído da cortadora, da cena sob o amarelo e o azul daquele dia, do cheiro que ocupava suas narinas. Ela se aquietava, refreava as ideias e se exercia em sentir. Afundava-se na cadeira como se quisesse mergulhar nas sensações. Submersa. Dessa vez a casa do avô. A fazenda, os animais, a grama circulando a casa. Zé Toco preparava o instrumento, colocava o querosene, verificava a lâmina. Crianças nem na varanda, vai que uma lasca dessas cai no olho? De jeito nenhum. Ela e os outros levados para dentro de casa. Atraída, a janela era a fuga. Abaixada na varanda ela contemplava o espetáculo de lascas verdes pulando do chão. Zé Toco dançava uma sintonia diferente, sério, duro. Ela se escorria pelos olhos e sorrisos. O bailado das folhas no azul era uma festa. O cheiro verde era de felicidade. Não era. O cheiro verde era de morte. A máquina calava, Zé Toco guardava todo o aparato.  Empunhando o ancinho, ele recolhia os pedaços cortados sem vida. Emurchecidos pelo sol abrasador. Desfalecidos. Os outros, com a vida cortada, se ressentiam da dor. O cheiro de sangue verde suspenso no ar. A janela outra vez. Os olhos tristes derramavam-se, face e palavras, não é para cortar a grama.

Refez-se na cadeira. Apanhou a bolsa. Ela desceu no próximo ponto. Ainda estava no transe. Caminhava lentamente, deixando no ônibus em movimento a cena, o ruído, o cheiro, a memória. Lentamente desfazia-se das sensações. Mas as palavras, essas, só depois de muitos dias. Ela dizia que não sabia dizer o que sentia quando sentia.

 

Lílian Almeida

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Um pensamento sobre “Ela dizia que não sabia dizer o que sentia quando sentia

  1. Numa prosa suave escreves forte. Não fere os ouvidos porque harmonioso, mas sem dúvidas intenso, tanto que arrepia a alma … Parabéns! Um abraço, Gilka Coimbra

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