A carta suicida

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Essa é uma carta suicida.

Aos poucos vou me matando, de desânimo, de solidão, de inutilidade. A memória é uma bruxa que me ofereceu doces e hoje me mantém a pão e água. Pouca água, se me molho me morro mais ainda. A lembrança, essa malvada, me tortura. O passado me chicoteia. Eu cedo, deixo, exangue.

Em dias de azul e passarinhos, transbordei do amor que sorria nas palavras em vermelho lidas à janela. Os suspiros me enchiam de vida. A certeza de um grande amor vinha dos beijos, das marcas de mãos e boca. O meu corpo acolhia todo o fulgor dos apaixonados. Às vezes o calor dos lábios transformava-se em pranto serenado, em borrões e marcas indeléveis sobre mim.

Já vivi o nascimento e a morte, mesmo ainda estando viva (apenas por pouco tempo). Quantos netos, sobrinhos e filhos vi chegar aos seus avós, tios e pais? Não sei, o tempo apaga os números mais saudáveis. As faces ainda amassadas eram ditas cheias de viço e vida, belas, de uma beleza primordial que apenas os recém-nascidos têm. As mortes, essas eu mesma tratei de esquecer. Dor e pesar, lamento e tristeza, palavras duras demais para carregar por toda uma existência. A face da derradeira muitas vezes conduzi no dever de avisar. Saudades, por vezes susto, recaiam sobre mim depois das notícias dadas, dos laços extremados pela ausência.

Bom mesmo é falar de vivo, de amigo. Amores, aventuras, desamores, planos e enganos. Amizade é assim mesmo, de tudo e tudo um porto, um abrigo. Amigos afastados por distâncias diversas, o mesmo bem querer. O mesmo sentir que muitos ontens é agora, o instante do encontro com a folha suspensa entre as mãos. Gabi vai fazer vestibular pra odontologia. Dani casou com o namorado depois de sete anos de namoro. Alan mudou o consultório para a zona Sul. Edna se recuperava da laqueadura, estava no quinto filho. O primeiro netinho de Fê e Roberto nasceu, chama-se Daniel. Histórias indo e vindo, atravessando o tempo e as distâncias pelas linhas no papel.

Lembrar é um entre aspas do que já foi vivido. Agora, sem texto, sem letra, sem papel, o meu presente é o vazio. Me mato porque não vivo, porque restar-me pelos cantos e esquinas empoeiradas de passado não é viver, é sobrevida, sobra do que já não é. Me mato porque a inutilidade só é bem vista para a arte. E eu, de arte, só sei uns versos que levei de um louco a outro. Me mato porque eu mesma é que me extingui. As palavras, as tintas e papéis estão todos aí, eu é que me perdi do percurso veloz das gentes. Eu, no meu passo lento, perdi o bonde hightec. Caí na obsolescência, no esquecimento. Em cinco minutos eu estarei morta. Em cinco minutos você esquecerá tudo até aqui. E me levará ao mais fundo sepulcro, ao olvido de mim mesma, à solidão de ser apenas a última carta.

 

Lílian Almeida

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