Todas as cartas de amor – fragmentos

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Uma proposta obtusa

A praça vermelha vizinha ao escritório da empresa convida. Os relógios gritam aos relatórios e à noite. O sol desce calmamente sobre a cidade das árvores. O céu era vermelho, verde e azul. O flamboyant floria o dia e a espera. Quando você chegar, venha sentar-se comigo à sombra da primavera das árvores.

O vermelho acima e abaixo da majestosa árvore aquece a saudade do que não é. Na curva do banco eu sento e sinto sua chegada vermelha. A cor do encontro. No dia que será, a lua exibirá um manto rubro, o sol deitará sobre o horizonte em vermelhidão, as águas do mar deixarão o azul e um tom de ocaso saudará você e eu.

A minha retina filtra o agora e me lança para o que virá. Nos meus olhos a sua aparência é leve e alegre. Sentaremos na grama e a vida ficará amena em dias de correnteza. A força do meu desejo me diz que na próxima esquina cruzarei contigo. Onde está que não te vejo? No lance dos olhos reconhecerei você? Quando a minha íris encontrar a sua, uma fagulha acenderá o que já foi e confirmará o que é e será. Saberemos.

Não me faça perguntas quando for o dia. Agora o vento brinca com as folhas e os meus cabelos dançam sob a copa vermelha. A minha pele é a aragem morna da praça. Nós sentiremos o porvir. Mas por que não vem logo? Há tempo que te busco e aguardo o encontro.

As nuvens fininhas têm cheiro e forma do já sabido no atemporal do tempo. Um tempo sem ir e voltar brinca com as vidas. As pessoas passam a caminho delas mesmas. Também eu vou em busca. De você? De mim? De quê? A pressa consome os dias. O relógio gargalha a ilusão do ponteiro adiantado e a frustração dos outros dois. Estou sentada na curva do banco e não estou. Os olhos dos passantes são letreiros de ônibus, contas de mês, choro de criança, consultas médicas, notas de avaliações, livros a devolver. Investigo-os na invisibilidade da curva do banco da praça. As pessoas que atravessam os flamboyants enxergam a existência fora dos olhos cheios de vida? Terá você passado com os olhos cheios de vida e não me viu?

Olho para mim mesma. Naquele instante esvaziei as minhas retinas. Também estou repleta de vida, números, cálculos e relatórios de performance. Estou cheia de know-how e inglês-francês-espanhol e índices e alíquotas e horários e reuniões. Reviro-me, inquieto-me, procuro no micro-caos em mim uma abertura, um espaço vazio para ver além do que enxergo. O agudo dos ângulos enquadra o olhar. Rasgo as retas e escancaro as linhas numa proposta obtusa ao relógio. Todos os ponteiros correm incansavelmente em recusa.

Volto os olhos para as árvores, a noite sorrateira despeja estrelas acanhadas no céu da cidade. Embaralho-me na quadratura dos enquadramentos, o agudo da noite convida-me a correr com os ponteiros. O desejo de que os nossos relógios marquem o mesmo tempo é uma fissura na ordem do meu dia, Amado. Somente uma curva me levará a você?

(Fragmentos do livro inédito Todas as cartas de amor – Lílian Almeida)

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2 pensamentos sobre “Todas as cartas de amor – fragmentos

  1. Pingback: Ler para se perder e se encontrar | Cartas, fotografias e outros guardados

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