Vale quanto sonha

No meu registro de nascimento constam algumas informações a meu respeito, acho que no de vocês também. Lá tem meu nome e sobrenome, os nomes dos meus pais e do responsável pelo cartório,cujo nome no momento não me lembro.

Quando alguém quiser saber onde nasci, a cidade e o estado, e só conferir no meu primeiro currículo pessoal.

Vai ver que, além da minha cor, parda, as cores dos meus olhos e dos meus cabelos, tem o dia, o mês e o ano em que vim ao mundo conhecer a humanidade.

Algum tempo depois, baseado nessas informações, deram-me um documento chamado identidade, com número e tudo, acompanhado das minhas digitais. Sem ela ninguém se responsabiliza pela minha existência, sem ela sou um indigente, mais um número para a assistência social. Sem ela eu não consigo a minha subsistência, nem você.

E para muitos, e durante muito tempo, a vida é apenas esse amontoado de números e letras acompanhado de uma foto 3 x 4. Acho que deve ser por isso que todo mundo fica feio nessa foto.

Mas há aqueles que sem prazo de validade não admitem a escravidão do acaso, e percebem que não são apenas números e datas acompanhados de uma foto amarelada. E diante disso, do inexplicável que é estar vivo, constroem sonhos com as próprias mãos, e estão sempre à procura do fogo. Da luz. Do silêncio sábio da escuridão.

Eles são documentados pelo tempo, pela nossa memória, eles nascem raros como a generosidade, e apesar da certeza da morte, eles não perecem e renascem a todo instante. Em todos os lugares.

São os que realmente acreditam que há um céu na Terra, independente da religião que acreditam, por isso não pregam, nem são pregados, todavia estão sempre com os braços abertos. Não disponíveis à cruz, mas ao abraço.

Não gastam o preciso tempo com nomes ou sobrenomes, chame-os do que quiser, eles virão. Porque eles não estão, eles são.

Surgem aos poucos, à tarde, pela manhã, ou à noite. Tanto faz se é domingo ou sexta-feira, dia dez, trinta de dezembro ou fevereiro.

Não se sabe ao certo de onde eles vêm, eles estão no mundo todo, dando gás aos desavisados. São brancos, negros, amarelos, gente de todas as cores, dores e lugares.

Aquarelas nos olhos enxergam o mundo colorido, apesar do preto e branco que impera.

Para eles, os sonhos são frágeis e ao menor toque de realidade podem se quebrar.

Presos à liberdade, riem do cotidiano.

Enquanto a maioria dorme, é essa gente que roda a manivela da humanidade.

Enquanto uns recitam o CIC e o RG, eles querem colocar o polegar na história, e sabem que ter documentos ou ser documento, é uma escolha sua.

Você vale quanto sonha, porque viver é isso, ou você escolhe ou é escolhido.

Sérgio Vaz (Literatura, pão e poesia)

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