Todas as cartas de amor – fragmentos

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Andança reta e ângulo agudo

Amanhece um dia azul e amarelo. O bem-te-vi saúda-me à janela. O quarto do hotel é confortável e oferece bela vista para a copa das árvores salpicadas de flores lilases. Quis saber que árvore era aquela que floria em lilás, nenhuma resposta foi precisa. O que esta cor diz de nós dois? As florezinhas trouxeram você para mais perto de mim nesta manhã. Esses dias que brotam sorrindo me alegram e entristecem.

O relógio avança ordenando as visitas. Percorrer os escritórios, os percentuais de lucro, as baixas de venda. Planilhas, números, contabilidades, prestações de conta. Números e números e números espalham-se sobre a mesa e as mãos dos gerentes de cada setor. Comento, concordo, replico e advirto os ganhos e as perdas. Sobretudo anoto e escrevo e rabisco. O relatório para a central deve ser enviado ao final dos dias. Dia pesado como a força da empresa. Lá fora, através do vidro minuciosamente límpido do prédio, o cotidiano se oferece ameno, descontraído. Nestes dias de visita às empresas sou fúria e calmaria num correr de instantes.

O tempo passa sob o compasso dos segundos. O sol demora a dar adeus e se prolonga no horizonte que margeia o Guaíba. Os casais partilham o chimarrão, mesmo com um calor de vinte e oito graus. Partilham também os abraços e beijos, as fotografias do espetáculo azul-rosáceo. Simplesmente os casais partilham, a si e ao que está próximo. Onde estará você? Cada carta que te escrevo é uma tentativa de dividir contigo o meu instante, o meu dia, eu mesma. Por que não está aqui? Estas horas de ausência gritam uma saudade terrível. Uma falta do que virá, do que viverei contigo, do que pareço já ter vivido. Saudade só existe do que já foi? Que nome se dá quando se sente falta do que ainda vai-se viver? Sinto a sua chegada. Quando mesmo o meu olhar encontrará o seu? Quando você chegar as flores lilases das árvores serão vistas por nós dois.

O rio segue o seu fluxo e eu também. Estou sempre de partida, Amado, sempre indo. Meu caminho é andança reta e ângulo agudo calculado sob a ponta dos números que escorregam dos escritórios das empresas. As sinuosidades e aberturas escapolem das minhas mãos. Retenho-as porque sei que o meu caminho chegará à sua estrada depois da virada de qualquer dia.

O sol encontrou o horizonte por trás do Guaíba, a noite descerra o seu véu. O quarto do hotel é vazio, o café não esquenta, uma distância de tempos faz a vida morna enquanto não chega a hora do encontro.

(Fragmentos do livro inédito Todas as cartas de amor – Lílian Almeida)

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