Todas as cartas de amor – fragmentos

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Uma dor de mim

O noticiário me oferece em inglês a crise imobiliária norte-americana. Recuso. Agora não quero números e índices e riscos monetários. Que jornal estampará a epidemia de solidão das pessoas? Em quantas línguas será noticiada a crise dos apartamentados? Estrangulo os esquadros de uma vida em alta de números e aquisições e em baixa de mim mesma. A balbúrdia dos sons da TV explode uma dor de mim. Olho a janela ao lado. Haverá também, ali, uma dor? Uma dor adormecida ou acordada? E você, tem dores caladas pela televisão nas noites frias?

Aperto o power e me calo para ouvir melhor o vazio. A chuva molha a vidraça e descortina as retas onde me prendo. Vários feixes de linhas pa¬ralelas e perpendiculares constroem o ângulo reto em mim. Cada ângulo conversa com números e percentuais. Estou cercada. Empurro os traços, abro as arestas. A rigidez das demarcações é maior. O vidro esboça molhados desenhos curvilíneos. Sinuosidades e angulações. O caminho. A curva no vidro, no corpo, na estrada. Na curva, Amado, tudo se amplia?

(Fragmentos do livro inédito Todas as cartas de amor – Lílian Almeida)

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4 pensamentos sobre “Todas as cartas de amor – fragmentos

  1. Pingback: Ler para se perder e se encontrar | Cartas, fotografias e outros guardados

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