Ritos de passagem

Eu vivi aí, há muito tempo, com os pastores e os camponeses. Vivi, portanto nesse
reino, vi com os meus próprios olhos e ouvi com as minhas orelhas os seres
fabulosos por detrás das coisas: os espíritos guardiães das fontes as sereias
que cantam no rio, os mortos das aldeias dos antepassados que me falavam
iniciando-me nas verdades alternativas dos dias e das noites.
É-me portanto suficiente nomear as coisas, os elementos…
Leopold Sedhar Senghor

Com elas me treinei a escolher as fibras, a mais macia e dúctil para a demolhar no tempo e traçar num exercício de dedos e tinta para apreender o sol e os sonhos de cada dia. Com aquelas crianças aprendi a soltar o coração pelos versos para dobrá-los em cada sílaba, cada frase no visgo das asas.

Neste momento, no chão da Huíla, as mulheres da minha idade já se juntaram aos antepassados e velam, noutro lugar, pela ordem do mundo. Sobra uma mulher velha amarrada à paisagem como se sempre lhe pertencesse, tecendo palavras como antigas esteiras que estende ao passo dos novos e aos cantos das raparigas. Sobrou de um tempo e de uma forma de dizer que já não existem, mas é a ela que recorrem todos em busca dos panos de nascer e de dormir. Guarda as fórmulas (saudações da manhã, da tarde, da noite, velhos segredos do ventre, sonhos dormidos de chuva). Com as mãos segura as águas e faz com que tudo se aquiete. A madrugada ainda vem junto com o leite e o céu separa-se da terra sob uma luz coada de fibras. É dela a ciência do número que repete em cada esteira: grandes quadrados mágicos divididos em quadrados mais pequenos cada um com um número e uma letra cuja leitura obriga a um centro e orientações segundo as linhas curvas dos caminhos na vertical, horizontal diagonal.

Dessa mulher aprendi as vozes, a cartografia da viagem, as cores da terra, os sentidos todos do mundo.

Estes poemas cabem dentro do ruído (gargantas atravessadas de gritos, mãos na enxada curta, corpos curvados ao peso das crianças. Estes poemas vêm de longe e estão longe agora que habito a brancura do silêncio. O mundo arrumou-se à minha volta, e se perdi o ruído da água, o riso das crianças e o sul da montanha, continuo rio à procura de leito, em torno do animal do sacrifício, embora já não me seja fácil nomear as coisas… os elementos.

Sei da seca. Sei das águas soltas. Sei dos ciclos. Persigo a palavra, um poema, apenas um poema para trabalhar todos os dias até conseguir que se leia pelo avesso. Com ele podia iluminar as sombras da vida, criar harmonia na desordem, voltar à palavra primeira como aquela que inaugura as grandes costuras dos veludos teke (as águas que separam o céu e a terra, e as águas que dividem o mundo habitável do mundo subterrâneo). Seriam precisas muitas mais vidas e conhecimentos de forja que não herdei das mais velhas. Resta-me continuar a tecer e a celebrar estes momentos de amizade em que poemas (mesmo os antigos) e pessoas se misturam em templos de afeto cumpridos nesta vida.

Ana Paula Tavares

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