Lamento pelo elogio da força

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Para todas as mulheres que cruzaram a estrada da minha existência, ontem, hoje e além. Reverência e gratidão.

Em algum momento da vida disseram-me que eu deveria ser forte. Disseram que os homens não choram, que eles são fortes. Disseram que eu, ao contrário do meu irmão, podia chorar, mas deveria ser forte. A partir dali ser forte passou a ser equivalente a não chorar.

No reflexo da minha memória minha mãe afirmava em gestos e palavras a fortaleza implantada nela: sobreviver à vida severina, criar as vidas geradas. Eu, menina, apreendia mas não sabia o que seria. A primeira batalha era independência econômica. Os dedos condutores do tecido na máquina de costura afirmavam, em riste, o valor do suor do rosto transformado em dinheiro: não depender de homem para ter o pão.

Quantas vezes o estudo era plataforma para conquistas feministas? Não sei. Era preciso estudar, trabalhar e não depender de homem. A conquista da autonomia era gritada em todas as janelas, em meus dois ouvidos, em todos os anos de vida dentro da casa dos meus pais. Mas, e onde ficaram o choro e a força? Eles vinham como argamassa desse revestimento bonito chamado autonomia financeira. Construir a autonomia era uma forma de ser forte. Podia-se chorar, mas era preciso levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima. Era preciso ser forte e persistente aos ventos intensos da vida.

Não, os tropeços que a vida impõe ao longo do tempo não eram negados ou esquecidos. A história dos meus pais, cheia de tropeços e quedas, era exaltada. Ela exemplificava o ideal onde eu devia mirar para tornar-me uma pessoa vitoriosa. Não me lembro de qualquer fala, voz, sussurro, que me dissesse que eu podia chorar quando a vida me oferecesse um tropeção. Era simples: a vida impõe obstáculos, você pode cair, mas tem que ser forte para re-erguer-se e vencê-los. Mais simples era a parte do choro: como eu era menina, podia chorar. Simples afirmação retórica rapidamente esmagada pela exigência de tanta força. Chorar como? A força para levantar-se em prontidão secava qualquer gota que ousasse marejar meus olhos. É preciso ser uma mulher forte!

Eu apreendia e reproduzia todos os comandos dessa força e autonomia impingidas em mim. Volta e meia alguns ventos fortes me levavam ao chão. Resoluta da postura adquirida eu me re-erguia, forte. Certa feita a ventania zuniu e eu, prostrada, escutei a cantiga ancestral. Quantas dores caladas na garganta, mãe? Quantas chagas marcadas na alma, vó? Quantas perseguições atravessadas nos saberes antepassados, bisa? Quantos filhos desfeitos no ventre? Quantas mulheres e gerações calaram seu sofrer com um gole grosso e rijo de força, goela abaixo? O esforço secou-lhes as lágrimas. Os sofrimentos também. Planta sem água, seca, rígida. A canção de aquém e além molhou meus olhos esquecidos de lacrimejar. A cabeleira dos bambuzais dançava molhado sob a intempérie. Eu doía e via o bailado de planta verde e úmida e flexível. O saber ancestral desvelava-se nas hastes dos bambus. Quantas mulheres, mãe, secaram-se no labirinto da sobrevivência? Na premência de resistir às tempestades? Acaso você também faz parte desse exército de mulheres? Eu, mãe, agora me desalistei.

A cada ventania a canção antiga renova-se nos meus olhos. Alio-me aos ventos e nuvens pesadas e chovo por dentro e por fora. Não disseram que as meninas podiam chorar? Ponho a força, hoje minha companheira, herdada da esteira de mulheres que me antecederam, na cadeira de espera. Choro com todas as forças, deságuo as dores todas. Alimento-me com essa seiva que brota daquilo que me fere. Toco o solo com a reverência do bambu em sua dança malemolente, permito-me oscilar entre o chão e os galhos verdes elevando-se. E quando, convicta de que o tempo das águas já não é profusão, eu sentar-me na cadeira do recomeço, abraçarei levemente a companheira que me aguarda. De braços dados sorriremos flores vermelhas, a qualquer tempo espalhadas quando os ventos do inverno outra vez me visitarem.

Lílian Almeida

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4 pensamentos sobre “Lamento pelo elogio da força

  1. Me vi nesse texto. Minha mãe também afirmava que tínhamos que construir a fortaleza (que algumas vezes, me encarcera). O trabalho e o estudo foram sugeridos como caminhos. E eu os segui. Mas, amiga, eu elogio a força, embora vez em quando a regue com lágrimas, para que ela não morra de sede. Lindo texto!!! Parabéns!

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  2. Oi “pôssora”,
    Lembras de mim? Linda reflexão, nós somos cobradas e “moldadas” para sermos fortes, mas às vezes a carga é tão pesada que necessitamos descansar. O choro é o nosso descanso e desabafo. Chorar de alegria, coisa boa; e de tristeza também, pois se não estou enganada, alguém disse que a lágrima encharca a secura do coração. Um forte abraço, que deus te ilumine e abençoe. Parabéns pelas sábias palavras!
    Emanuelle Paim.

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  3. Lindo texto! Acredito que nós mulheres somos forjadas por esses conceitos, independente da época ou região onde vivamos. Com o passar do tempo minhas lágrimas ficam bailando nos olhos e às vezes escorregam, mas ainda são motivadas pelo belo, pela música, por uma criança,pela injustiça, pela miséria, por um bom texto, por um abraço sincero. Ainda tenho que aprender a chorar por mim…Abraços

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  4. É desconcertante esta capacidade de desvelar o outro, desvelando-se. Você consegue criar uma relação de autoria muito forte em quem, como se fosse autobiográfico de quem lê. É desconcertante. Parabéns.

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