O primeiro cabelo branco a gente não esquece

no silêncio

da minha carne

profunda

riscas o sulco

onde me exilo

(Helena Parente Cunha)

1. Meses atrás conversava com uma amiga sobre a proximidade do meu aniversário, as expectativas com os projetos de vida e as vidas projetadas que se colam em nós. Falávamos sobre a passagem do tempo, tudo o que já fizemos e as marcas que ele deixa em sua passagem. Foi então que ela falou algo que ainda não tinha me dado conta: “Cabelo branco em homem é charme, em mulher é desleixo”. Concordei reticente. Ainda não tinha me dedicado a pensar sobre o assunto, mas admitia que as cobranças de estética corporal, facial e sei lá mais o que eram mesmo mais exigentes com as mulheres. Dias depois, na caixa de correspondências uma revista me colocava outra vez em contato com aquele assunto: “Por que a mulher fica velha e o homem fica charmoso?” A resposta ainda não estava pronta, um emaranhado de coisas que eu já li, já falei e até já escrevi assaltavam-me e pediam-me uma posição.

2. Eu admirava a postura firme de uma amiga que chegou aos cinquenta ostentando seus belos cabelos grisalhos. Todavia, uma coisa a incomodava: ainda faltavam 10 anos para ela cruzar a linha de chegada da categoria idoso, mas sempre que se via em qualquer fila logo alguém mencionava o atendimento exclusivo para idoso. Era irritação certa. Aconselhada pelo cabeleireiro pintou os cabelos para um tom clarinho que combinava com a sua pele.

3. Há alguns anos dediquei-me a escrever um artigo para um Simpósio sobre Gênero tendo por foco, naquele ano, o tema da velhice, ou da melhor idade como preferem alguns, e conduzi as linhas da minha discussão pela relação entre a mulher e o envelhecimento. Entrou na dança a ditadura da beleza feminina, a concepção equivocada da velhice como degeneração, bem como a valorização dos traços físicos deixados pelo tempo que indicam a construção de uma história, uma história de vida. Àquela época olhava os rostos das mulheres mais velhas, sobretudo as bem idosas, como quem investiga o que cada sulco marcado no rosto denunciava da vida daquela mulher. Quais os percursos? Quais os percalços? O corpo delas era um livro aberto que eu intentava ler. Suas silhuetas avolumadas, suas mãos enrugadas, seus peitos caídos, murchos, as olheiras e bolsas sob os olhos, os cabelos brancos. Todo o corpo era testemunha, cúmplice de uma vida que a sociedade implicava em dizer que devia ser escondida. Escondida, por quê? Escondida de quem? Ou de quê? Eu ficava me perguntado se aqueles “Fios de idade” não tinham mesmo é que contar, revelar ao mundo que aquelas mulheres tinham uma história, viveram, e que só quem viveu tem o que contar.

4. Minha mãe vivia dizendo que achava cabelo branco em homem um charme. Não demorou para que os cabelos brancos se misturassem em meios aos seus cachos negros. Foi só o tempo da ficha do “desleixo” cair para ela aderir ao preto nº 1.

5. Penteava, dia desses, os meus crespos cabelos negros e… qual não foi a minha surpresa quando um fio diferente reluziu em meio ao pente e aos demais fios negros. Um belo e comprido cabelo branco! Não imaginei que com tão curta idade (passei pouco dos quinze anos, rsrs) já seria contemplada com meu primeiro fio de cabelo branco. Lembrei dos “Fios de idade” e regozijei-me: só quem tinha vivido podia ter cabelos brancos! Fiquei me achando a pessoa mais estúpida do mundo. Milhares de pessoas, sobretudo as mulheres e a ditadura da beleza, dando elevados lucros às indústrias de tinturas capilares, esconjurando e amaldiçoando qualquer fiozinho branco que ousasse aparecer, e eu, no maior porre de alegria, achando o máximo descobrir o meu primeiro fio de cabelo branco. Dediquei a ele toda a pompa que as coisas primeiras têm: o primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira transa, o primeiro soutien (menina moça, heim?), a primeira viagem com o namorado, o primeiro carro…  o primeiro cabelo branco. Dias depois, em mais uma generosa sessão de pente, creme e amassadelas com as mãos (coisa que só quem tem as madeixas crespas sabe o que é) vi, junto a outros fios emaranhados no pente, o meu primeiro cabelo branco. Recolhi-o tristemente, pesarosa. Guardei-o numa caixinha. Talvez um dia ele perca a pose que agora tem e seja simplesmente o marco do nascimento de mais uma usuária de tinturas.

6. A dica é de especialista. Uma ex-professora minha e uma colega de profissão foram categóricas em afirmar que “mulher não envelhece, fica loira”. O aval é dos cabeleireiros de cada uma delas, profissionais de salões chiquérrimos.

É… cá estou e me vejo compelida a dar um fechamento mais “redondo” a essas divagações em seis atos (rsrs). Lembro então de outra amiga. A leveza do seu exemplo mostrou-me a linha tênue do equilíbrio entre descuidar de mim e a ditadura da beleza. Usar protetor solar, um creminho antes de dormir e aproveitar a vida com tudo o que ela tem pra ofertar. Aquele pé de galinha no canto do olho? A marca no canto da boca? É o sinal de quem sempre tem um sorriso no rosto. Ainda continuo amando o meu cabelo branco guardado na caixinha.

Lílian Almeida

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Um pensamento sobre “O primeiro cabelo branco a gente não esquece

  1. Lílian, li o texto “O primeiro cabelo branco…” e achei fantástico!

    Um fiozinho branco e toda essa reflexão – verdadeira que nos cerca.

    Eu te confesso que estou em outra fase… rsrsrsr Há anos ( apareceram muito cedo) sou freguesa das tintas e dos cabeleireiros e estou querendo assumir meus brancos ( que não são poucos) …

    Gostei imensamente! Parabéns!!

    Abraço, Gilka

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