Mulherzinha?

Hélio Feijó – Mulher deitada (Nanquim sobre papel, 1971)

Era essa a palavra utilizada para aludir à escritora francesa Simone de Beauvoir, numa conversa pouco formal, um dia desses. Um colega comentava sobre a correspondência de Beauvoir e seu amante norte-americano Nelson Algren. Dizia que as cartas revelavam uma Simone mulherzinha, que desejava fazer comidinhas para o amado.

Aquela palavra ficou mal digerida em mim. Rebatia-se incansavelmente. Resolvi expurgá-la pensando um pouco mais sobre ela.

Que havia de mal numa mulher desejar preparar comidas para o homem que dizia amar? Que havia de mal deste desejo partir de uma mulher feminista? Haveria incoerência em ser feminista e querer cozinhar para o amado? Desconfio que as respostas a tais perguntas em suspensão são responsáveis pela escolha do adjetivo empregado com o sufixo indicativo de diminutivo -inha.

A escolha fora adequada para o propósito. Em nosso uso da língua portuguesa o diminutivo representa não apenas a “ideia de pequenez”, como define o Aurélio, mas é usado também para conferir inferioridade, atribuindo um caráter depreciativo ao nome a que é associado. Não é à toa que muita gente faz cara feia ao ter algo adjetivado como bonitinho, por exemplo. Ao longo do caminho que percorro volta e meia ouço alguém usar o tal “mulherzinha”. Revista de mulherzinha, literatura de mulherzinha, coisa de mulherzinha… sempre acho que um menosprezo escorre da boca pronunciadora.

A francesa foi o estopim para a minha indignação. Uma mulher inteligente, senhora de si, intelectual respeitada, questionadora da opressão feminina imposta pelo homem, defensora de uma ampla conscientização da mulher acerca do seu estar na sociedade, convicta de que a tomada de posse do corpo feminino pela própria mulher geraria grandes mudanças, não pode, não deve aliar a luta por uma consciência feminista com a vontade de cuidar do outro, a que atavicamente fomos ensinadas?

O que se espera de uma mulher com uma ampla consciência feminista? Parece que se espera um homem de peitos crescidos. Posturas duras e rudes, adeus a qualquer coisa que seja ou lembre a palavra feminina. Adeus ao gosto pelo ambiente da casa, adeus à maternidade e à afeição a crianças, adeus aos trabalhos manuais e ao apreço das artesanias. Adeus aos cuidados com a aparência… adeus, adeus.

A ideia de rejeitar as palavras feminino e feminista, bem como tudo que remeta ao campo semântico em que elas estão inseridas faz parte dos ganhos e das perdas que o movimento de luta das mulheres proporcionou. É claro que o movimento feminista teve os seus excessos. E isso já é esperado de todo movimento que deseja desidentificar-se. Sempre digo que é semelhante a adolescente, o desejo de tornar-se independente, desidentificado com o velho, com os pais, alia-se à rebeldia e uma tempestade acontece. A denúncia da subserviência e opressão da mulher gerou uma desidentificação com as mulheres que viviam tal situação (muitas ainda vivem a opressão e a violência, sobretudo na dimensão simbólica). Por um tempo achou-se que a “nova mulher” era um “homem de saias”. Parece-me que aí está uma das raízes do tal uso da palavra “mulherzinha”. Já faz décadas que os momentos mais extremados do movimento passaram, no entanto, ainda há quem se prenda àquela negação lida equivocadamente.

Creio que o grande desejo do movimento era de ampla conscientização da mulher, de respeito às diferenças e de condições igualitárias para homens e mulheres. Desconfio que a roupa de “nova mulher” ou “mulher moderna” fique ainda desajustada nessa proposta. A típica cena classe média ilustra bem. A mulher trabalha fora de casa, o marido também. Os filhos e a casa ficam sob os cuidados de uma babá e/ ou uma empregada doméstica. À noite, em casa, o pai, o marido, o dono de casa, sobretudo o homem, acerca-se das notícias do mundo e refestela-se no sofá depois de um dia cansado de trabalho. A mulher, sobretudo a mãe, a dona de casa e a esposa, acerca-se dos filhos e suas necessidades, das instruções do dia seguinte para as empregas e, se ainda houver imaginação (é bom que haja), das lingeries para usar entre os lençóis. Ah, ela também teve um dia cansado de trabalho. Caso reclame das muitas atribuições, ouvirá que as empregadas cuidam da casa, e, se necessário for, pode-se contratar mais uma. Pergunto-me: onde, dentro da casa, está a condição de igualdade? A divisão das responsabilidades? Em algum momento nós, mulheres (mães, avós, esposas, filhas, colegas, etc), esquecemos de explicar aos homens que dividir as responsabilidades não significa simplesmente contratar uma empregada doméstica, que o eximirá de qualquer atividade dentro do lar (nada contra as empregadas domésticas). Fico pensando na mulher que serve à casa desse suposto casal. Também ela não terá uma família e viverá semelhante situação?

Lanço um olhar em curva sobre as mulheres do meu tempo e ele volta pra mim. Parece que sempre há metas e pragmatismos a dar conta. Na lógica do time is money o tempo fez-se senhor rígido: tempo de conquistar estabilidade financeira e o reconhecimento profissional. A flexibilidade tão nossa foi se petrificando.

Na procura da flexibilidade do tempo, do corpo, da vida, renovo e honro as muitas mulheres que me habitam. A que se compraz em fazer agradinhos ao amado, a que se regozija com as conquistas acadêmicas, que se alegra de estar no aconchego do lar, a que se decepciona com as frustrações da profissão, a que deseja aprender com os filhos, a que guia o veículo com a satisfação de quem é livre, a que invenciona coisinhas manuais para decorar a casa, a que é feminista e sobretudo é feminina. Sim, é esse ser, cheio de imprecisões e inconstâncias que cultivo na mulher que sou. Porque a mulher é um ser humano e, como tal, é feita de ambiguidades e incoerências. É feita da mesma humanidade que há no homem.

Lílian Almeida

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3 pensamentos sobre “Mulherzinha?

  1. Lindo texto, Liu. Você escreve sobre a nossa condição com a “delicadeza firme” de uma mulher. Uma mulher competente, sensível, linda e muito querida!!!!! Muito bom!!!
    Bjossssssss

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