O filho eterno – a peça teatral


É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

O que dizer daquilo que nos arrebata? Essa, volta e meia, é a minha dificuldade: transformar em palavras o arrebatamento promovido pela arte. Drummond já afirmou que “Lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã./São muitas, eu pouco”. Eis-me aqui, mais uma vez lutando comigo e com as palavras para traduzir minha emoção ao assistir à peça O filho eterno, dirigida por Daniel Herz, adaptação do livro homônimo de Cristóvão Tezza.

Era uma noite fria de domingo. Procurar o teatro numa cidade pouco conhecida sob uma garoa insistente não era o melhor indício para o que me aguardava. As expectativas eram as melhores, muitos foram os comentários sobre O filho eterno.

Num canto, sentado em uma cadeira de costas para o palco, o pai (Charles Fricks) aguardava o momento de deixar jorrar um turbilhão de inquietações. Íamos entrando e sentando. Aos poucos a luz baixou, desapareceu, e um jovem escritor começou a narrar sua percepção desiludida da vida, sua vaidade de “antena da raça”, suas expectativas com uma carreira em começo e com o filho prestes a nascer.

“O filho da primavera” nasceu e trouxe cravado no DNA uma flor de três pétalas chamada Síndrome de Down. Não era bem essa a flor que o pai esperava colher daquela vida que não era lá muito boa, mas que não imaginava que fosse, num primeiro golpe de vista, ficar pior. O aturdimento com a notícia é tamanha. Incrível o peso do silêncio. As características da síndrome são enumeradas num decrescimento de volume até o inaudível. O silenciamento é completo, a boca continua a desfiar um rosário de informações surdas. O silêncio grita em meus ouvidos a completa decepção daquele pai.

É, talvez tudo aquilo não passasse de uma provação divina a um descrente, era a explicação do pai. Mais, muito mais, talvez tudo aquilo não passasse de uma oportunidade. A convivência se fizera suportável, vergonhosamente aceitável, amorosamente indispensável. Improvável manter-se impassível diante de uma profusão de afeto. A criança flor de primavera ofertava ao pai, senhor de emoções frias e gestos petrificados, a ternura aquecida na leveza do abraço.

Não, não se engane com minhas palavras. O texto é seco, desapiedado, chocante. Os mais torpes pensamentos, não confessados nem ao travesseiro, assaltam meus ouvidos e olhos. No palco, o ator e uma cadeira dão uma “materialidade granítica” à solidão daquele pai A trilha sonora, o jogo de luz e cor e os espaços do palco tramam os fios dos locais (casa, hospital, escola), do narrador, da consciência, da expectativa e do desespero, tecidos pela brilhante atuação de Charles Fricks. Uma harmonia brutal e emocionante.

Aplausos de pé, em abundância. Meu ser aos poucos retornou do percurso teatral. Eu também colhia a minha flor em êxtase. Uma fina cortina de chuva fechava a noite e o espetáculo.

Lílian Almeida

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