A bênção, minha avó

Colheita de folhas numa plantação. Sebastião Salgado , Êxodo Ruanda, 1991.

Bênça, minha vó.

No quarto simples reverencio o seu percurso. Uma mulher negra de cabelos brancos aguarda o fim dos dias. Eu, mulher negra de cabelos ainda pretos, me curvo e recebo sua bênção, minha avó. Recebo a sabedoria ancestral das mulheres. Folhas, unguentos e rezas. Colho e acolho cada prece, cada palavra bendita e o poder sagrado dormente na natureza.

Por trás de seus olhos perfilam-se centenas de mulheres. Em cada uma a marca do tempo, do destempero, dos dissabores de um caminho aberto no peito, na força e doçura de ser mulher. Eu venho de muitas estradas, caminhos e trilhas. Eu venho de um tempo de outrora e de agora. Sou filha da marcha de tantas mulheres, banhada por dores, violências e desrespeitos.

Mais uma vez beijo suas mãos de luta, cheias de linhas de vida e saberes guardados. Quantos, vó, gritaram seu sopro de vida em suas mãos? Quantos umbigos enterrados? Quantas vezes o sangue por onde brota a vida fez-se flor em suas mãos, na cabeça da criança?

Heim, minha vó, e as vezes que as ervas e seus murmúrios fizeram sarar menino, velho, homem ou mulher? O canto surdo e sibilante enchia a casa precária e suas mãos, vestidas de folhas, dançavam diante do corpo do enfermo.

A senhora se lembra, minha vó? Mulher decaída de vontade de viver, quebrantada… é olhado, né, minha vó? E espinhela caída? A senhora se lembra?

Os olhos serenos de quem já viu o tempo e os temporais. Tempestade, ventanias, mares revoltos. Num tempo imemorial todas nós celebramos a união com todos os seres, com toda a existência. Levantamos bandeiras, preparamos unguentos, reverenciamos o sagrado… fomos alimento para as fogueiras da intolerância. A minha linhagem está no atemporal do tempo. Sou a herança dos percursos trilhados por minha mil avó, minha bisa, minha avó, minha mãe, minha filha, minha neta, bisneta, tataraneta e além.

Milagroso aroma de erva subia do fogão de lenha e enchia a casa. Inda tem os chás, né, minha vó? É tanta folha… água de alevante pro coração, folha de araçá, bem nova, segura diarreia, né não?

Ah, minha vó… estendo minhas mãos e recebo suas bênçãos. Curvo meu corpo e reverencio o seu saber ancestral, todas as mulheres que estão atrás de ti. Reverencio minha bisa, índia pegada no mato. Reverencio a legião de mulheres que desbastaram as pedras do caminho por onde passo agora. Honro seus corações mutilados pelo desrespeito, suas mãos ensanguentadas pelas violências, seus olhos molhados das dores todas. Ó, mulheres que me antecederam, benditas sois todas vós.

Vó, planto aqui e além, sua semente de jequitibá-rei. Me alimento da seiva fundamental. Germino no húmus do meu ser novos brotos do jequitibá que é  e continuará a ser.

Olho os seus olhos úmidos de vida, tomo suas mãos e agradeço. Agradeço todas as bênçãos que sua frágil mão derrama sobre mim. Sou grata, minha avó, mulher que traz nas mãos o jardim das folhas sagradas.

Lílian Almeida

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