Sobre a chuva

Chuva!

Às vezes é calma, doce e serena como manha de bebê. Às vezes é forte e ruidosa como choro de criança. A chuva desce sobre os telhados, infiltra todos os caminhos possíveis, envolve o que estiver em seu percurso. O curso das águas deixa um rastro impalpável de limpeza.

Crente no poder de limpeza e renovação vinculado à chuva e na simbologia da vida inerente à água, repasso na memória uma trilha literária de textos que confortam o meu sentir. Os irmãos Dagobé, de Guimarães Rosa, e a partida para a nova vida na cidade. Ou a expressiva inexpressividade de Macabéa, na Hora da estrela de Clarice Lispector, em sua morte em posição fetal. São apenas alguns…

A chuva que cai sobre a cidade limpa os ares e o meu pulmão, menos empretecido com o furor das fumaças produzidas por olhos de não ver. Num sonho, vi o meu pulmão transformar-se de rosáceo para cinza. Espectadora de mim mesma, rebatia-me frente à impossibilidade de parar de inspirar fumaça e fúria. Abri os olhos, o cheiro do fogo sufocava-me. Chovia.

Chove sobre a cidade fria. Escorre pelas bicas, pelas ruas e bueiros o resíduo dos dias. Aos poucos o aroma de água fresca espalha-se pelos ares. Enrolada nos cobertores escuto o canto líquido do recomeço.

Lílian Almeida

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