Intervalo

(Intervalo)

Apenas mais uma história no meio de tantas outras

E se olha no espelho, faz isto há anos. Como é noite, tem que se preparar, maquilagem, perfume, secador de cabelo, está na hora, em breve as colegas chegarão para lhe pegar. E percebe (apenas por um instante que prefere esquecer imediatamente) que a cada visita, torna-se mais envelhecida, vazia. Não, não é mais uma menina. E sabe disso mesmo que não tenha coragem ou possa dizer (fazer isso seria admitir que o tempo passou e que ela continua na mesma situação). E nós sabemos de tudo isso, porque ela não mais escolhe as roupas com antecedência, já não dança na frente daquele espelho, não se imagina vivendo qualquer coisa excitante e feliz. Ela já não escuta aquela música com a mesma emoção de antigamente, cansou de reprisar aqueles sentimentos passados. E todas as canções que agora ouve não representam nada, melhor não se lembrar do que vive. Surge, então, o momento de perplexidade. Aquele que ela prefere evitar. E começa a pentear o cabelo como se pudesse fugir, se esconder. Como uma formiga ao redor do açucareiro, o pensamento persiste, multiplicando-se em outros mil, batalhão de mini-interrogações em ebulição. Por que insiste tanto? Se tem consciência de que não vai dar em nada, se já aprendeu que o amor não é como pensava? Ela tem a resposta, gostaria de gritar, explodir, chorar, mas prefere ficar calada (fazer o contrário seria admitir que o tempo passou e que ela continua na mesma situação). Para rebater isso, teria que se dar a oportunidade de analisar. E analisar seria pensar e conseqüentemente admitir: tenho manchas de vários verões e carnavais, mas continuo só. E por que não aceitar, então? Porque cansou de ser diferente, quer ser igual a todo mundo, quer poder falar sobre filhos, sobre o trabalho do marido, sobre os planos de férias da família. Porque tem medo de morrer sozinha, sem ninguém, sem carinho. Porque cansou de sentir-se deslocada, inferior, incapaz. Porque quer ir ao cinema com alguém, quer sair para jantar com alguém. Porque cansou das piadinhas das tias, quer ser como as primas. Porque Deus lhe deve isso, existem pessoas muito piores que já encontraram o seu par, sua metade. Porque ela fez tudo direitinho, se formou, comprou um carro, um apartamento, apenas para poder dividir. Porque  quer um Natal com árvore, Papai Noel, presentes embalados. Porque precisa se doar, se entregar. Porque, se ela deixar de acreditar no amor, é melhor morrer, se jogar na frente de um carro. Ouve a buzina, o interfone, as colegas chegaram, hora de descer.

Renata Belmonte

BELMONTE, Renata. O que não pode ser. Salvador: EPP Publicações e Publicidade, 2006.

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