O minuano espalhava as últimas cinzas

Cinza. A cor dos seus olhos: uma paleta de cores acinzentadas. Cinza médio, cinza claro, cinza escuro, cinza-urano… Dizia ver o mundo pelos cinzentos matizes pigmentados pelo seu estado de espírito.

O dia irmanava-se com ele, sem sol, sem céu, sem calor. Sem. Nesses dias sua alegria descontente era cinza claro.

A fome revirava-lhe as vísceras, sem água, sem comida. Sem. Nessas horas seu desejo era cinza escuro.

A madrugada escavava, pá a pá, as dores, os nós, o buraco de sua existência. Nesses momentos sua presença era cinza-urano.

Aprendeu a vestir-se de cinza e tudo nele acostumou-se àquela cor. As retinas, enquadradas, esqueceram as cores um dia conhecidas.

Um dia todas as cores retiraram-se. O dia e a noite chocaram-se num cinza crepuscular que invadiu a cidade fria. Naquele instante tudo era cor e cheiro de cinza.

A ventania assobiava grave. A tempestade, em rodopio, dançava. Um veloz bailado vermelho arrancava as vestes do homem sem cor, rasgava todos os tempos, incendiava as dores, os nós. A tempestade consumia o instante. Certeiro, um clarão branco cortou os ares. Uma fagulha queimou-lhe as retinas.

Chovia transparente sobre a paisagem, sobre seus olhos.  O minuano espalhava as últimas cinzas.

Lílian Almeida

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